quarta-feira, 23 de março de 2011

O discurso médico como forma de exclusão

"o SUS está dispendendo uma verdadeira fortuna no intituito de NÂO atender as pessoas autodenominadas "transexuais", quando deveria estar facilitando o processo"


Comentário a um texto apresentado num blog, cujo autor não consegui até o presente mmomento identificar e que está na integra no seguinte endereço:
http://devir.wordpress.com/2010/04/11/os-filhos-de-hermes-e-afrodite/


O texto é cheio de distorções da realidade e sonega informações importantes. Em primeiro lugar, se contradiz ao afirmar que transexuais buscam a terapêutica, uma vez que o mesmo apresenta a patologização como uma estratégia de setores do movimento organizado na busca por atendimento pelo SUS.

Parece-me que o autor comete uma gafe ao apresentar como argumento a ideia de que a transexualidade deve continuar sendo patologizada para que haja atendimento em território nacional e se esquece que o CID-10, assim como DSM IV são catálogos internacionais, assim como a campanha pela despatologização é interncional-ou seja, nossos problemas internos não fazem diferença alguma no processo de despatologização, cabendo ao SUS e aos segmentos que ainda pleiteiam a patologização estratégica, adaptar-se.

Agora, com todo respeito, mas o autor do texto pareceu-me desonesto ao tentar colocar em dois lados diferentes "acadêmicos" e "interessados". Como se não houvessem pessoas auto-declaradas "transexuais" ou "pós-identitárias" que pleiteiam o processo dentro ou fora do SUS (modelidade que a atual burocratização via parologização torna proibitiva) e que estão dentro da academia ao lado dos "acadêmicos".

Esquece-se também que a Campanha pela Despatologização das Identidades Trans é puxada internacionalmente por centenas de organizações ,entre elas, grupos e pessoas "trans" reconhecidas como tais como Carla Antonelli.

Outra informação que o texto sonega é que se exige a participação de uma equipe multidisciplinar para a eaboração de laudos técnicos. Ora, se a patologização serve como estratégia para o acesso dos contribuintes do SUS ao suposto "tratamento", por que tanto cuidado? Não seria mais interessante aos "interessados", que se observasse o posicionamento de apenas um "especialista"?

Na prática o que vemos, por exemplo, é um centro de referência importante, como o Hospital Pedro Ernesto (RJ), no qual se fazem em média 2 (duas) cirurgias por ano. Ou seja, o Processo Transexualizador, da forma como está configurado (e baseando-se na hipótese de que se trata de um "distúrbio", hipótese tal rechaçada pela maior parte dos estudiosos, incluindo pelo que entendi o autor do artigo) funciona na prática como estratégia de exclusão do SUS e não de inclusão. Sem falar que torna simplesmente inviável este tipo de serviço pela iniciativa privada. OU seja, o SUS está dispendendo uma verdadeira fortuna no intituito de NÂO atender as pessoas autodenominadas "transexuais", quando deveria estar facilitando o processo.

E mais: se o objetivo da "psicoterapia" é avaliar se o suposto "paciente" não estaria sofrendo de algum tipo de "delírio esquizofrênico" por que não exigir deste um "check-up" um laudo que ateste "sanidade mental" (se é que "sanidade" faz parte do vocabulário dos supostos "psicoterapêutas") ao invés de inventar "doenças mentais" novas?

Por fim, a pergunta do autor do texto a respeito de quem tem o direto de mando sobre a saúde (leia-se "corpos") dos supostso "pacientes"- o próprio indivíduo ou um suposto "saber médico", apresenta-se como uma confissão de culpa.Trata-se não de defender a saúde dos contribuintes, mas a sua "docilização estatal" e sua inclusão em normas de gênero delimitadas pela cultura.

Amplexos aos leitores

Dorothy Lavigne,
estudante de História pela UFPR, Teorica Queer, militante da despatologização das identidades "trans". "Mulher transexual" autodenominada e portanto autolegitimada como tal.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Desmascarando o DSM-IV

Saudações,

Sejam bem-vindos ao blog "Patologia Não !". Este espaço se propõe a trazer a tona um debate importantíssimo que toma a cada dia uma maior espaço no noticiário e tem como objetivo denunciar a violenta imposição de normas de gênero via "patologização! e "medicalização" das chamadas "Identidades Trans". Mais que isso, chamamos em território brasileiro, a Campanha Internacional pela Despatologização das Identidades Trans, que ajunta em mais de 20 países, centenas de organizações e é "puxada" entre a princiapais pela ILGA- International Lesbian and Gay Association.O Brasil, infelizmente, está na "lanterninha" da discussão desse tema polêmico, sendo um "tabu" nas organizações de travestis e transexuais.

Ora, a transexualidade está inclusa no código F.64 do CID-10 (Código Internacional de Doenças, organizado pela Organização Mundial de Saude) e no Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders IV (DSM IV) da American Psychiatric Association.

Por que nos opomos a tal avaliação psicopatologizante? Por ora, enquanto traduzimos e encaminhamos aos leitores uma versão em português do Manifesto da Campanha (que ja´pode ser lida em diversas linguas), ficamos com trechos do documentário "Psiquiatria: um industria da morte", como conveniente introdução. Propomos e recomendamos que o leitor assista ao documentário completo, que não caberá no presente blog, sendo este dividido em 11 partes, todas disponíveis no Youtube.

A primeira parte do filme serve como introdução ao tema apresentado- a evolução da psiquiatria como "ciência" e sua importancia política na sociedade contemporãnea:



As partes a seguir demonstram o modelo epistemológico, isto é, de que forma psiquiatras definem os transtornos e distúrbios que figurarão nos versões- a cada dia maiores do CID e do DSM.





Esperamos que os filmes tenham sido de bom proveito e que sirvam para acalorar debates sobre tão importante e polêmico tema, uma vez que a mídia "oficial" tem aceito dogmaticamente (por motivos a nós evidentes de ordem economica e moral) o discurso das ciências chamadas "psi"- psicologia, psicanálise, e especialmente, psiquiatria e não tem divulgado, aliás tem escondido debaixo do tapete, pontos de vista diferenciados.

Isto é apenas o começo, bem-vindos ao mundo da informação e da discussão séria.